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Neuralgia do Trigêmeo: Sintomas e Tratamento

8 de set.
6 min de leitura

Poucas dores são tão intensas e características quanto a da neuralgia do trigêmeo: episódios curtos, em choque elétrico, que atingem um lado do rosto e podem ser desencadeados por estímulos simples, como escovar os dentes ou sentir o vento no rosto. Apesar de rara, é uma das condições mais dolorosas descritas em medicina, e o diagnóstico correto muda completamente o tratamento.

Neste artigo, explico o que é a neuralgia do trigêmeo, como reconhecer seus sintomas, quais são as causas mais comuns, incluindo casos que exigem investigação mais aprofundada, e quais são as opções de tratamento, clínicas e cirúrgicas, respaldadas por diretrizes internacionais.


Neste artigo você vai encontrar


  • O que é a neuralgia do trigêmeo

  • Sintomas: como reconhecer a dor

  • Causas: clássica, secundária e idiopática

  • Sinais de alerta que pedem investigação mais aprofundada

  • Como é feito o diagnóstico

  • Tratamento medicamentoso e cirúrgico

  • Perguntas frequentes


O que é a neuralgia do trigêmeo


O nervo trigêmeo é o quinto nervo craniano, responsável pela sensibilidade da face e por parte da função motora da mastigação. Ele se divide em três ramos, oftálmico, maxilar e mandibular, que juntos cobrem testa, bochecha, mandíbula e parte do couro cabeludo.

A neuralgia do trigêmeo é uma dor neuropática que afeta esse nervo, causando crises de dor muito intensa, unilateral, em um ou mais desses ramos. É uma condição rara: afeta entre 4 e 13 pessoas a cada 100 mil habitantes por ano, com prevalência ao longo da vida estimada entre 0,16% e 0,3% da população. É mais comum em mulheres, na proporção aproximada de 1,5 a 1,7 mulher para cada homem, e a maioria dos casos surge após os 50 anos.


Sintomas: como reconhecer a dor


A dor da neuralgia do trigêmeo tem características bem definidas, que ajudam a diferenciá-la de outras dores faciais:

  • Localização unilateral, restrita à área de um ou mais ramos do nervo trigêmeo, sem irradiar para fora desse território

  • Crises curtas, durando de poucos segundos a cerca de dois minutos

  • Qualidade da dor em choque elétrico, pontada ou facada, de intensidade severa

  • Desencadeada por estímulos leves e cotidianos (zonas-gatilho), como tocar o rosto, mastigar, escovar os dentes, falar ou sentir vento

  • Entre as crises, muitos pacientes ficam completamente sem dor, embora parte deles desenvolva também um desconforto contínuo de fundo, mais leve, entre os episódios agudos

A intensidade e a natureza súbita da dor levam boa parte dos pacientes a evitar atividades simples do dia a dia, como se alimentar ou lavar o rosto, por medo de desencadear uma crise.


Neuralgia do Trigêmeo: Sintomas e Tratamento

Causas da neuralgia do trigêmeo


Neuralgia clássica: compressão vascular


Na maioria dos casos, a neuralgia do trigêmeo é classificada como clássica, causada pela compressão da raiz do nervo trigêmeo por um vaso sanguíneo próximo, geralmente uma alça da artéria cerebelar superior, na região onde o nervo sai do tronco encefálico. O contato repetido do vaso com o nervo provoca desmielinização e disparos elétricos anômalos, gerando as crises de dor.

Para ser classificada como clássica, a compressão vascular precisa ser confirmada por ressonância magnética ou durante cirurgia, mostrando não apenas contato, mas alterações morfológicas no nervo, como atrofia ou deslocamento da raiz nervosa.


Neuralgia secundária


Em até 15% dos casos, a neuralgia do trigêmeo é secundária a uma causa estrutural identificável, como tumores comprimindo o nervo, malformações vasculares ou, mais notavelmente, esclerose múltipla. A esclerose múltipla responde por cerca de 2% a 4% dos casos secundários, por causar desmielinização no núcleo do nervo trigêmeo no tronco encefálico; entre pacientes com esclerose múltipla, a prevalência de neuralgia do trigêmeo é estimada em cerca de 3,4%.

O surgimento de neuralgia do trigêmeo em uma pessoa jovem deve sempre levantar a suspeita de esclerose múltipla e motivar investigação por ressonância magnética dedicada, capaz de identificar placas de desmielinização na ponte.


Sinais de alerta que pedem investigação mais aprofundada


Alguns achados sugerem uma causa secundária e merecem investigação mais completa, geralmente com ressonância magnética dedicada:

  • Início antes dos 40 anos

  • Perda de sensibilidade na face (a neuralgia clássica não costuma causar déficit sensitivo)

  • Dor bilateral

  • Sintomas neurológicos associados, como fraqueza, alterações visuais ou de equilíbrio

Nesses cenários, é importante descartar tumores, malformações vasculares e esclerose múltipla antes de definir o tratamento.


Como é feito o diagnóstico


O diagnóstico é essencialmente clínico, baseado nas características da dor descritas pelo paciente, seguindo os critérios da Classificação Internacional de Cefaleias (ICHD-3): dor facial unilateral recorrente, restrita ao território do nervo trigêmeo, em crises paroxísticas de segundos a dois minutos, de qualidade elétrica (choque) ou em facada, desencadeada por estímulos inócuos na área afetada.

A ressonância magnética de crânio, com protocolo específico para o nervo trigêmeo, é recomendada em todos os pacientes para diferenciar a forma clássica (com compressão vascular e alteração morfológica do nervo) da secundária (tumor, esclerose múltipla), além de orientar o planejamento cirúrgico quando necessário.


Tratamento


Tratamento medicamentoso


O tratamento de primeira linha é medicamentoso. A carbamazepina é o medicamento com a evidência mais robusta para controle da dor, geralmente em doses de 200 a 1.200 mg por dia, segundo as diretrizes conjuntas da American Academy of Neurology (AAN) e da European Federation of Neurological Societies (EFNS). A oxcarbazepina é uma alternativa com eficácia semelhante e melhor tolerabilidade em muitos pacientes.

Baclofeno  é considerado como alternativa ou terapia adjuvante. A resposta a esses medicamentos costuma ser rápida e essa boa resposta inicial à carbamazepina é, inclusive, um dado que reforça o diagnóstico de neuralgia do trigêmeo.


Tratamento cirúrgico


Quando a dor deixa de responder aos medicamentos, ou os efeitos colaterais se tornam limitantes, opções cirúrgicas entram em consideração, geralmente conduzidas por neurocirurgião:

  • Descompressão microvascular: cirurgia que afasta o vaso sanguíneo do nervo trigêmeo, tratando a causa da compressão. É a técnica associada ao maior tempo livre de dor entre as opções cirúrgicas, em pacientes com compressão vascular confirmada.

  • Radiocirurgia (gamma knife): técnica não invasiva que aplica radiação focada na raiz do nervo trigêmeo, indicada especialmente para pacientes com maior risco cirúrgico.

  • Técnicas percutâneas no gânglio de Gasser: incluem rizotomia por radiofrequência e compressão por balão alternativas menos invasivas, com boa resposta inicial, mas maior taxa de recorrência a longo prazo em comparação à descompressão microvascular.

A escolha entre as técnicas leva em conta idade, condições clínicas, causa da neuralgia e preferência do paciente, sempre discutida entre o paciente e o  neurocirurgião.


Perguntas frequentes


Neuralgia do trigêmeo tem cura?

Sim, pode haver nos casos de neuralgia do trigêmeo clássica. Grande parte dos pacientes consegue controle completo ou quase completo da dor com medicação, e a descompressão microvascular oferece as maiores taxas de remissão prolongada nos casos com compressão vascular confirmada.


A dor de dente pode ser confundida com neuralgia do trigêmeo?

Sim, e o contrário também acontece,  não é incomum que pacientes com neuralgia do trigêmeo façam tratamentos dentários desnecessários antes do diagnóstico correto. A diferença está no padrão da dor: crises curtas, em choque, desencadeadas por toque leve, seguindo o trajeto dos ramos do nervo trigêmeo. Dor dentária costuma acometer um dente específico sempre que ele é estimulado mecanicamente ou por temperatura (líquidos gelados etc.)


Neuralgia do trigêmeo é sinal de esclerose múltipla?

Na maioria dos casos, não. Mas quando surge em pessoas jovens, ou é bilateral, ou vem acompanhada de perda de sensibilidade facial, a investigação para esclerose múltipla e outras causas secundárias é obrigatória.


Quando procurar um neurocirurgião em vez de continuar só com a medicação?

Quando a dor não responde mais aos medicamentos em doses adequadas, quando os efeitos colaterais se tornam intoleráveis, ou quando a ressonância mostra uma causa estrutural que se beneficia de correção cirúrgica.


Conclusão


A neuralgia do trigêmeo é uma das dores mais intensas descritas em medicina, mas também uma das que mais respondem bem ao tratamento correto. Reconhecer o padrão característico da dor — crises curtas, em choque, desencadeadas por estímulos leves em um lado do rosto — é o primeiro passo para buscar avaliação com neurologista ou neurocirurgião, confirmar a causa por ressonância magnética e iniciar o tratamento mais adequado, seja medicamentoso ou cirúrgico.

Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento médico. Procure sempre um neurologista ou neurocirurgião para avaliação individualizada.


Sobre o autor


Dr. Gustavo Jung — Neurocirurgião, Instituto de Neurologia de Curitiba. CRM 29398 | RQE 21757. Conteúdo redigido e revisado pelo autor.

Referências

1. Maarbjerg S, Sørensen MT, Gozalov A, Bendtsen L, Olesen J. Field-testing of the ICHD-3 beta diagnostic criteria for classical trigeminal neuralgia. Cephalalgia. 2015.

2. International Classification of Headache Disorders, 3rd edition (ICHD-3). Seção 13.1 — Trigeminal Neuralgia.

3. Gronseth G, Cruccu G, Alksne J, et al. AAN-EFNS guidelines on trigeminal neuralgia management. Eur J Neurol. 2008. PubMed PMID: 18721143.

4. Trigeminal Neuralgia. StatPearls, NCBI Bookshelf. NBK554486.

5. Prevalence of trigeminal neuralgia in multiple sclerosis: A systematic review and meta-analysis. PubMed PMID: 34986455.

 
 
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