Tontura e Perda Auditiva: Causas, Sinais de Alerta e Tratamento
Sentir tontura ao mesmo tempo em que a audição parece abafada, distante ou reduzida em um dos ouvidos não é coincidência. As estruturas responsáveis pelo equilíbrio e pela audição ficam lado a lado dentro do ouvido interno, dividindo o mesmo líquido (endolinfa) e, em muitos casos, o mesmo suprimento sanguíneo e nervoso. Por isso, quando um problema atinge essa região, é comum que os dois sintomas apareçam juntos.
Essa combinação pode ter causas benignas e passageiras, mas também pode ser sinal de uma emergência otológica — como a perda auditiva súbita — que exige tratamento em até duas semanas para ter chance real de reversão. Neste artigo, explico as principais causas, os sinais que indicam necessidade de atendimento imediato e como é feito o diagnóstico e o tratamento.
Neste artigo você vai encontrar
Por que tontura e perda auditiva aparecem juntas
Principais causas (labirintite, Ménière, perda auditiva súbita e mais)
Sinais de alerta: quando é emergência
Como é feito o diagnóstico
Tratamento, de acordo com a causa
Perguntas frequentes
Por que tontura e perda auditiva aparecem juntas?
O ouvido interno abriga duas estruturas dentro do mesmo compartimento: a cóclea, responsável por transformar o som em impulso elétrico, e o labirinto vestibular, responsável pelo equilíbrio. As duas compartilham a endolinfa, o líquido que preenche esses canais, e recebem irrigação sanguínea pela mesma artéria, a artéria labiríntica.
Essa proximidade anatômica explica por que doenças inflamatórias, infecciosas, vasculares ou de pressão de líquido que afetam uma dessas estruturas frequentemente comprometem a outra também. Uma labirintite viral, por exemplo, pode inflamar tanto o nervo vestibular quanto o coclear. Já a doença de Ménière altera a pressão da endolinfa em todo o labirinto, atingindo equilíbrio e audição simultaneamente.
Entender essa base anatômica ajuda a interpretar os sintomas: quando tontura e perda auditiva vêm juntas, a origem provavelmente está no ouvido interno — e não em causas mais genéricas, como o uso popular do termo "labirintite" para qualquer tipo de tontura.
Principais causas de tontura com perda auditiva
Labirintite e neurite vestibular
A labirintite é a inflamação do labirinto, geralmente causada por vírus, e costuma cursar com tontura rotatória intensa, náuseas, vômitos, zumbido e perda auditiva no ouvido afetado. Quando a inflamação atinge apenas o nervo vestibular, sem envolver a cóclea, o quadro é chamado de neurite ou neuronite vestibular — nesse caso, a audição costuma ser preservada, o que ajuda a diferenciar as duas condições.
Os sintomas costumam surgir de forma abrupta, atingem o pico em algumas horas e tendem a melhorar gradualmente ao longo de dias a poucas semanas, embora alguma instabilidade residual possa persistir por mais tempo, especialmente em movimentos bruscos de cabeça.
Doença de Ménière
A doença de Ménière é uma condição crônica do ouvido interno causada pelo acúmulo excessivo de endolinfa (hidropisia endolinfática). Segundo os critérios diagnósticos, o diagnóstico de Ménière definitivo exige: dois ou mais episódios espontâneos de vertigem, cada um durando entre 20 minutos e 12 horas; perda auditiva neurossensorial documentada por audiometria em frequências baixas a médias, em pelo menos uma ocasião; sintomas auriculares flutuantes (audição, zumbido ou plenitude aural) no ouvido afetado; e exclusão de outras causas vestibulares.
Diferente da labirintite, que costuma ser um episódio único, a Ménière é recorrente, as crises se repetem ao longo dos anos, e a perda auditiva tende a piorar progressivamente e a se tornar permanente, mesmo que a audição flutue entre as crises no início da doença.
Perda auditiva súbita (emergência médica)
A perda auditiva súbita, também chamada de surdez súbita, é definida pela diretriz de 2019 da American Academy of Otolaryngology–Head and Neck Surgery (AAO-HNS) como uma queda de pelo menos 30 dB em três frequências consecutivas do audiograma, instalada em até 72 horas, geralmente em um só ouvido. É considerada uma emergência otológica: existe uma janela terapêutica de aproximadamente duas semanas em que o tratamento com corticoide oral, intravenoso ou injetado diretamente no ouvido (intratimpânico), tem mais chance de reverter ou reduzir a perda.
Entre 20% e 60% dos pacientes com perda auditiva súbita apresentam tontura ou vertigem associada, o que costuma indicar um comprometimento mais extenso do ouvido interno e, segundo revisões sistemáticas recentes, está relacionado a um prognóstico auditivo pior. Por isso, perda auditiva de início repentino, com ou sem tontura, deve ser tratada como urgência e avaliada por um otorrinolaringologista o quanto antes, idealmente nas primeiras 24 a 48 horas.

Neurinoma do acústico
O neurinoma do acústico (schwannoma vestibular) é um tumor benigno que cresce a partir das células de revestimento do nervo vestíbulo-coclear, o mesmo nervo que carrega os sinais de equilíbrio e audição até o cérebro. Por ser um tumor de crescimento lento, os sintomas costumam se instalar de forma gradual: perda auditiva unilateral progressiva, zumbido persistente em um ouvido e sensação de desequilíbrio, mais do que vertigem rotatória franca.
Apesar de raro, é uma causa importante a descartar em qualquer perda auditiva assimétrica (unilateral) e persistente, principalmente quando associada a zumbido de um único lado. O diagnóstico é feito por ressonância magnética, e o tratamento pode variar entre acompanhamento, radiocirurgia ou remoção cirúrgica, dependendo do tamanho do tumor, sintomas e perfil clínico dos pacientes..
Vertigem Posicional Paroxística Benigna (VPPB): o diferencial importante
A VPPB é a causa mais comum de vertigem, provocada pelo deslocamento de pequenos cristais de carbonato de cálcio (otólitos) dentro dos canais semicirculares. Ela se manifesta como crises curtas, de segundos, de vertigem rotatória desencadeadas por mudanças de posição da cabeça, como virar na cama ou olhar para cima.
Um ponto importante para o diagnóstico diferencial: a VPPB, isoladamente, não causa perda auditiva. Se a tontura posicional vier acompanhada de qualquer alteração auditiva, a causa provavelmente não é VPPB isolada, e outras hipóteses como labirintite e Ménière devem ser investigadas.
Causas centrais: migrânea vestibular e AVC
Nem toda tontura vem do ouvido. Quando associada a sintomas neurológicos, como visão dupla, dificuldade para falar, fraqueza ou dormência em um lado do corpo, alteração de marcha importante ou dor de cabeça súbita e intensa, a origem pode ser central (tronco cerebral ou cerebelo) incluindo a possibilidade de um acidente vascular cerebral (AVC). Esse quadro é uma emergência médica e exige avaliação hospitalar imediata.
A migrânea vestibular também pode causar episódios recorrentes de tontura, por vezes com sensibilidade a sons, mas sem perda auditiva mensurável na maioria dos casos, geralmente em pacientes com histórico pessoal ou familiar de enxaqueca.
Sinais de alerta: quando procurar emergência
Procure atendimento de emergência imediatamente se a tontura ou a perda auditiva vierem acompanhadas de:
Perda auditiva súbita, instalada em horas, mesmo sem dor
Fraqueza, dormência ou assimetria facial
Dificuldade para falar, engolir ou visão dupla
Dor de cabeça súbita e muito intensa, diferente das habituais
Perda de equilíbrio grave, com incapacidade de andar sem apoio
Vertigem intensa acompanhada de vômitos incontroláveis
Fora desses sinais de alarme, tontura leve e passageira, ou perda auditiva gradual ao longo de semanas ou meses, ainda merece avaliação médica, mas pode ser agendada em consulta de rotina, sem necessidade, na maioria das vezes, de pronto-socorro.
Como é feito o diagnóstico
A investigação começa com uma história clínica detalhada: tempo de início dos sintomas, se a perda auditiva é unilateral ou bilateral, se há zumbido, e o padrão da tontura (rotatória, contínua, ligada à posição). O exame físico inclui otoscopia, avaliação neurológica básica e testes de equilíbrio.
A audiometria tonal é essencial para confirmar e quantificar a perda auditiva e diferenciar causas condutivas de neurossensoriais. Testes vestibulares mais específicos, como a vectonistagmografia (VNG) e o video head impulse test (vHIT), ajudam a localizar o problema dentro do sistema vestibular.
Quando há suspeita de causa central (AVC, esclerose múltipla) ou de neurinoma do acústico, a ressonância magnética do crânio e dos condutos auditivos internos é o exame de escolha.
Tratamento: depende da causa
Não existe um tratamento único para tontura com perda auditiva. A conduta depende do diagnóstico:
Perda auditiva súbita: corticoide sistêmico ou intratimpânico, iniciado o quanto antes, idealmente dentro de 14 dias do início dos sintomas; oxigenoterapia hiperbárica pode ser considerada como terapia complementar.
Labirintite/neurite vestibular: sintomáticos para tontura e náusea na fase aguda, seguidos de reabilitação vestibular para acelerar a compensação do cérebro.
Doença de Ménière: dieta com restrição de sódio, diuréticos, antivertiginosos e, em casos refratários, procedimentos intratimpânicos ou cirurgia.
VPPB: manobras de reposicionamento (como a manobra de Epley), realizadas em consultório, com alta taxa de resolução em uma ou poucas sessões.
Neurinoma do acústico: acompanhamento por imagem, radiocirurgia estereotáxica ou remoção cirúrgica, conforme tamanho, evolução e perfil clínico dos pacientes.
Em todos os casos, o acompanhamento com otorrinolaringologista, e, quando há suspeita de causas tumorais/centrais, com neurologista ou neurocirurgião, é essencial para definir a melhor conduta.
Perguntas frequentes
Tontura com perda auditiva sempre é labirintite?
Não. "Labirintite" é usado popularmente para qualquer tontura, mas tecnicamente é apenas uma das causas possíveis. Doença de Ménière, perda auditiva súbita e neurinoma do acústico também cursam com tontura e perda auditiva, e o tratamento é diferente em cada caso, por isso a avaliação médica é indispensável.
Perda auditiva súbita pode ser revertida?
Em parte dos casos, sim, principalmente quando o tratamento com corticoide começa dentro da janela de até duas semanas do início dos sintomas. Quanto mais cedo o tratamento começa, maior a chance de recuperação parcial ou total da audição.
Quando devo ir à emergência em vez de agendar uma consulta?
Vá à emergência se a perda auditiva for repentina (horas) ou se houver sinais neurológicos associados, como fraqueza, alteração de fala ou visão dupla. Tontura leve e progressiva, sem esses sinais, pode ser avaliada em consulta ambulatorial com otorrinolaringologista.
VPPB causa perda auditiva?
Não. A VPPB provoca apenas vertigem breve ligada à posição da cabeça, sem afetar a audição. Se houver perda auditiva associada, a causa provavelmente não é VPPB isolada.
Conclusão
Tontura e perda auditiva juntas quase sempre apontam para o ouvido interno, mas as causas por trás desse quadro vão de infecções virais autolimitadas a emergências que exigem tratamento em dias. A regra prática é simples: perda auditiva de início súbito, com ou sem tontura, deve ser encarada como emergência e avaliada por um otorrinolaringologista o quanto antes. Fora isso, qualquer tontura persistente ou perda auditiva progressiva merece investigação, para identificar a causa exata e iniciar o tratamento adequado.
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento médico. Procure sempre um otorrinolaringologista ou neurologista para avaliação individualizada.
Sobre o autor
Dr. Gustavo Jung — Neurocirurgião, Instituto de Neurologia de Curitiba. CRM 29398 | RQE 21757. Conteúdo redigido e revisado pelo autor.
Referências
1. Lopez-Escamez JA, Carey J, Chung WH, et al. Diagnostic criteria for Menière's disease. Consensus document of the Bárány Society, the Japan Society for Equilibrium Research, EAONO, AAO-HNS and the Korean Balance Society. J Vestib Res. 2015;25(1):1-7. PubMed PMID: 26277738.
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3. Vestibular Dysfunctions in Sudden Sensorineural Hearing Loss: A Systematic Review and Meta-analysis. PMC5807659.
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