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Neuralgia do trigêmeo: quais medicações funcionam e como usar do jeito certo

  • 22 de jan.
  • 4 min de leitura

A neuralgia do trigêmeo é uma das dores mais intensas conhecidas na medicina. Ela costuma ser  descrita como uma dor em “choque elétrico”, súbita, extremamente forte, com crises rápidas que  podem ser desencadeadas por atos simples como mastigar, falar, lavar o rosto ou escovar os dentes. 


A boa notícia é que a maioria dos pacientes responde ao tratamento medicamentoso,  principalmente quando o diagnóstico é correto e a estratégia terapêutica é bem conduzida. Neste  texto, você vai entender quais remédios são mais eficazes, quais efeitos colaterais podem ocorrer e  qual é o “racional” de uso para reduzir crises sem excesso de sedação. 


O que é neuralgia do trigêmeo? 


O nervo trigêmeo é responsável pela sensibilidade da face. Na neuralgia do trigêmeo, ocorre uma  disfunção do nervo que gera crises de dor intensa, geralmente unilateral, em território de uma ou  mais divisões do trigêmeo (V1, V2, V3). 


O mecanismo mais comum é compressão do nervo por um vaso sanguíneo próximo à sua origem  no tronco encefálico (conflito neurovascular), embora outras causas possam existir (ex.: tumores,  esclerose múltipla, alterações anatômicas). 


Princípio básico do tratamento 


O objetivo do tratamento é: 


• reduzir a frequência e a intensidade das crises; 

• permitir alimentação, higiene e fala sem sofrimento; 

• manter qualidade de vida com mínimos efeitos colaterais


A neuralgia do trigêmeo é tratada principalmente com remédios que estabilizam a condução elétrica  do nervo — por isso, os anticonvulsivantes são os mais utilizados, apesar de o paciente não ter  epilepsia. 


1) Carbamazepina – a primeira escolha (padrão-ouro) 


A carbamazepina é o medicamento com melhor evidência científica para neuralgia do trigêmeo e,  em geral, a primeira opção. 


Como usar (doses usuais) 


• início típico: 100 mg 2x/dia

• dose habitual eficaz: 400–800 mg/dia 

• dose máxima comum: 1200 mg/dia 

(em casos selecionados, pode-se usar até 1600 mg/dia, com muita cautela) 


Efeitos colaterais mais comuns 


• sonolência, tontura e instabilidade 

• visão turva 

• náuseas ou desconforto gástrico 

• sensação de “cabeça lenta” 


Efeitos importantes (atenção) 


hiponatremia (sódio baixo) 

• alterações hepáticas 

• raramente reações cutâneas graves (como síndrome de Stevens-Johnson) 


Resumo prático: é a melhor medicação em termos de eficácia, mas precisa de ajuste gradual e  acompanhamento. 


2) Oxcarbazepina – alternativa com menos efeitos colaterais 


A oxcarbazepina é uma excelente alternativa, especialmente quando: 

• o paciente não tolera carbamazepina; 

• há sedação excessiva; 

• há interações medicamentosas relevantes. 


Ela pode ser um pouco menos eficiente em alguns pacientes, mas é frequentemente melhor  tolerada


Como usar (doses usuais) 


• início típico: 150–300 mg 2x/dia 

• dose habitual: 600–1200 mg/dia 

• dose máxima comum: 1800 mg/dia 

(alguns casos: até 2400 mg/dia) 


Efeitos colaterais 


tontura e sonolência

• hiponatremia (aqui pode ser ainda mais frequente do que na carbamazepina) 


Resumo prático: ótima opção quando a carbamazepina funciona, mas “cobra um preço alto”  em efeitos colaterais. 


3) Baclofeno – melhor como associação em refratários 


O baclofeno é um relaxante muscular com ação central. Na neuralgia do trigêmeo:


não é uma boa opção isoladamente 

• mas é frequentemente a melhor primeira escolha para associação, quando há resposta  parcial ao tratamento principal 


Em pacientes refratários, a combinação com carbamazepina ou oxcarbazepina pode trazer melhora  significativa. 


Como usar (doses usuais) 


• início: 5 mg 3x/dia 

• dose habitual: 30–60 mg/dia 

• dose máxima comum: 80 mg/dia 


Efeitos colaterais 


• sedação 

• fraqueza e tontura 

• maior risco de instabilidade em idosos 


Resumo prático: baclofeno “brilha” como complemento, e não como remédio único. 


4) Gabapentina e Pregabalina – úteis, mas menos eficazes na  neuralgia típica

 

A gabapentina e a pregabalina são muito usadas em dor neuropática, como lombociatalgia,  neuropatia diabética e pós-herpética. 


Na neuralgia do trigêmeo típica, elas: 

podem ajudar, principalmente se houver dor contínua associada (“dor mista”) • mas tendem a ser menos eficazes do que carbamazepina/oxcarbazepina 


Outro ponto importante: elas potencializam a sedação, principalmente quando usadas junto às  medicações de primeira linha.


Gabapentina (doses usuais) 


• início: 300 mg à noite 

• alvo: 900–1800 mg/dia 

• máximo: 3600 mg/dia 


Pregabalina (doses usuais) 


• início: 50–75 mg 2x/dia 

• alvo: 150–300 mg/dia 

• máximo: 600 mg/dia 


Efeitos colaterais: 


• sonolência e tontura 

• edema periférico 

• ganho de peso (mais comum na pregabalina) 


5) Toxina botulínica – opção para casos refratários/ intolerantes 


A toxina botulínica tem sido utilizada como opção complementar, principalmente quando: • o paciente é intolerante às medicações orais; 

• há refratariedade; 

• deseja-se reduzir doses sistêmicas. 


Ela pode ser aplicada em pontos de gatilho e na distribuição dolorosa do trigêmeo, com efeito que  costuma durar 3 a 4 meses


Efeitos colaterais: 


• fraqueza facial local transitória 

• assimetrias temporárias 

• desconforto local 


Resumo prático: opção interessante, sobretudo quando os remédios ajudam, mas causam  muitos colaterais.


O racional que mais evita colaterais: “subir uma medicação  antes de associar outra” 


Um dos erros mais comuns no tratamento é associar cedo várias medicações.  Isso geralmente: 


• aumenta pouca coisa em eficácia; 

• mas aumenta muito a sedação, tontura e abandono do tratamento


A estratégia correta é: 


subir uma medicação até a dose máxima tolerável 

➡ só depois, se ainda insuficiente, associar uma segunda. 

Sequência prática mais comum: 

1. Carbamazepina (ou Oxcarbazepina) 

2. titulação lenta até máximo tolerável 

3. se refratário: associar Baclofeno 

4. considerar Gabapentina/Pregabalina em casos selecionados 

5. considerar toxina botulínica e avaliação cirúrgica 


E quando o remédio falha? 


Quando o controle não é adequado, ou os efeitos colaterais impedem o tratamento, existem opções  muito eficazes: 

• descompressão microvascular (quando há conflito neurovascular) 

• radiofrequência / rizotomia 

• compressão por balão 

• radiocirurgia (Gamma Knife) 


Em muitos casos, o tratamento cirúrgico pode ser curativo ou muito duradouro, com  excelente qualidade de vida.

 
 
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